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Tradução e adaptação cultural: o que é e como deve ser realizada

17/08/2012

Por Lucas de Francisco Carvalho

Considerando que os testes psicológicos são, de acordo com a Resolução CFP 002 de 2003, “procedimentos sistemáticos de observação e registro de amostras de comportamentos e respostas de indivíduos com o objetivo de descrever e/ou mensurar características e processos psicológicos”, não é raro que pesquisadores importem de diferentes países testes bem conceituados do ponto de vista prático e psicométrico. Exemplos disso são o Inventário de Cinco Fatores NEO PI Revisado ([NEO-PI-R]; Flores-Mendonza, 2007) e a Escala Hare/Psychopathy Checklist Revised ([PCL-R]; Hare, 2004), sendo ambos os instrumentos para a avaliação de características da personalidade, o primeiro, de autorrelato com base no modelo dos cinco grandes fatores, e o segundo, de hetero-avaliação focado em aspectos da psicopatia ou transtorno da personalidade antissocial.

Os dois instrumentos são amplamente utilizados em estudos internacionais, tanto para a verificação das propriedades psicométricas dessas ferramentas quanto para a verificação da aplicação em diversos contextos e a partir de diversas populações. Utilizando a base de dados PsycINFO da American Psychological Association (APA) e o termo “NEO-PI-R personality”, são encontradas mais de 722 publicações em periódicos científicos e mais de 477 publicações na mesma base com os termos “PCL-R psychopathy”. No geral, as pesquisas sinalizam a adequação psicométrica e as diversas possibilidades que essas ferramentas oferecem para a prática profissional.

Assim, o NEO-PI-R e o PCL-R são testes psicológicos com argumentos suficientes para serem levados de um país para outro, isto é, há justificativa empírica para que se pondere o uso dessas ferramentas para além do país e cultura em que foram desenvolvidos. Entretanto, essa passagem não é algo a ser realizado de forma banal e não sistematizada, tratando-se, ao contrário, de um procedimento de grande relevância, com etapas pré-estabelecidas, que está relacionado com o sucesso do uso do instrumento no país para o qual está sendo adaptado.

Basicamente, a tradução e adaptação cultural de uma ferramenta psicológica é um procedimento no qual um profissional, usualmente um grupo de profissionais, desenvolve uma versão inédita de um instrumento já existente, considerando o idioma e cultura originais do país para o qual a nova versão será elaborada. Existem distintos manuais com propostas de estágios e etapas para a realização desse procedimento. Neste texto, serão apresentados os estágios de acordo com Beaton, Bombardier, Guillemin e Ferraz (2002). Esses autores desenvolveram um manual no qual descrevem cinco estágios importantes para a adaptação transcultural de instrumentos na área de saúde, sendo, tradução, síntese, back-translation (ou tradução reversa), revisão por um comitê de especialistas e pré-teste e versão preliminar.

O primeiro estágio trata da tradução do instrumento original para a língua do país para o qual se deseja obter uma versão do instrumento. Idealmente, esse procedimento deve ser realizado por dois tradutores independentes e preferencialmente bilíngues, um ciente da pesquisa e outro não. No estágio seguinte, síntese, uma terceira pessoa é somada à equipe. Essa pessoa deve mediar as discussões das diferenças entre as duas traduções realizadas. A partir disso, e de discussões entre a equipe, é formulada uma versão síntese e as discrepâncias solucionadas por consenso entre os pesquisadores.

Na continuidade, back-translation, utiliza-se a versão final produzida no estágio anterior. A partir do back-translation verifica-se o quanto a versão traduzida reflete a versão original do instrumento. Preferencialmente, esse estágio deve ser realizado por dois tradutores independentes, bilíngues, nativos na língua da versão original do teste. Na sequência, no quarto estágio, chamado de revisão por um comitê de especialistas, todas as versões do instrumento são revisadas, de modo a verificar a equivalência entre elas. Quando possível, é interessante que a equipe conte com juízes distintos, especializados em método científico e na área para a qual o instrumento se destina, bem como é importante a participação de todos os tradutores dos estágios anteriores. A equipe deve ter como foco a equivalência semântica, idiomática, experiencial e conceitual do instrumento. A partir deste processo, uma versão preliminar do instrumento é elaborada.

No último estágio, pré-teste e versão preliminar, a versão final obtida na etapa anterior deve ser aplicada em um pequeno número de participantes, questionando os respondentes sobre possíveis dificuldades para responder o instrumento. Essa etapa tem como objetivo verificar a existência de dificuldades no entendimento dos itens (ou variáveis) que compõem o instrumento.

Por um lado, a proposta de Beaton e cols. (2002) deve ser considerada com alguma flexibilidade, já que nem sempre é possível estabelecer uma situação ideal tal qual a proposta pelos autores. Por outro, o que se verifica na realidade brasileira, tanto na psicologia como em campos de interface (por exemplo, psiquiatria e neurociências), é que muitos instrumentos são unicamente traduzidos, e não adaptados para o país, sendo essa tradução muitas vezes realizada sem os cuidados e rigor necessários, após o que o instrumento passa a ser utilizado em clínicas e hospitais, sem que haja um olhar crítico sobre o uso da ferramenta no país. Ainda, vale ressaltar que o procedimento de tradução e adaptação, apesar de ser estritamente relevante para os testes importados de um país para outro, não é suficiente para garantir a adequação da ferramenta psicológica. Nesse sentido, ainda que haja a suposição de que as propriedades psicométricas favoráveis encontradas em outras culturas possivelmente se repitam também no Brasil (por exemplo), é necessário que estudos sejam realizados evidenciando essa ocorrência.

Por fim, é imperativo que os profissionais formados em psicologia tenham conhecimento acerca dos procedimentos minimamente necessários para tornar possível o uso de um instrumento desenvolvido para um determinado contexto em outro contexto. Esse conhecimento é certamente relevante para aqueles psicólogos que desejam importar ferramentas para o Brasil, mas é também relevante para os psicólogos que trabalham de algum modo com a avaliação psicológica, já que se faz necessária uma visão crítica sobre os procedimentos utilizados para veicular no país um instrumento que foi desenvolvido em outra realidade.

 

Referências

Beaton, D., Bombardier, C., Guillemin, F. & Ferraz, M. B. (2002). Recommendations for the crosscultural adaptation of health status measure. AmericanAcademyof Orthopaedic Surgeons. Institute for Work & Health.

Carvalho, L. de F. & Rocha, G. M. A. (2009). Tradução e adaptação cultural do Outcome Questionnaire (OQ-45) para o Brasil. Psico-USF, 14(3), 309-316.

Flores-Mendonza, C. E. (2007). Inventário de personalidade NEO-Revisado. Manual técnico. São Paulo: Vetor Editora.

Hare, R. D. (2004). Manual Escala Hare PCL-R: critérios para pontuação de psicopatia - revisados. Versão brasileira: Hilda Morana. São Paulo: Casa do Psicólogo.

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